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06/12/2009

Locadora (5)

História de um garoto que acidentalmente perde a visão e, por falta de recursos, seus pais são obrigados a mandá-lo para uma escola rigorosa para o tratamento de sua recente cegueira.
Dirigido, escrito e produzido por Cristiano Bortone, o drama envolve e emociona pela sua sensibilidade.
A sensibilidade de um menino italiano que aprimora seus sentidos, principalmente com os sons, e transforma a vida de todos que acompanham a sua trajetória. Até de quem assiste.
Um filme para não deixar de ver e sentir.

Nota: 10

Bolt é a primeira cria depois que John Lasseter (Toy Story, Carros) assumiu o cargo de diretor criativo da Disney. E com essa união Disney-Pixar não poderia sair algo ruim.
E foi um alívio para a Disney depois de passar alguns anos com animações anos-luz do que um dia esta empresa já nos encantou, com que seu criador já idealizou.
Não que Bolt seja uma obra prima da sétima arte, mas já traz o lado crítico e emocional da marca Pixar. Aquela marca que atinge seu coração e faz você rir quando está chorando. E vice-versa.
Temos aqui uma crítica consistente ao mundo do entretenimento e o apego do animal com o seu dono.
Recomendação máxima para os adoradores de uma boa animação. E para quem ama seu cachorros.

Nota: 9

O interessante desse filme é que ele tem dois lados para serem analisados. Quem disser que é uma bosta está certo. E quem disser que é ousado também.
Direto para DVD, O Justiceiro em Zona de Guerra nos traz um anti héroi basicamente foda. Matador. Macho Man. Raramente se vê nos filmes do gênero. Não tem dó de matar os bandidos e acaba com todos derramando litros de sangue. Um verdadeiro Punisher.
Porém conseguiram cagar no vilão. Totalmente caricato, previsível, idiota, sem noção e incompetente. O pior vilão que vi para o cinema. Sem falar da maquiagem capenga que fizeram para mostrar o seu retalho. Em vez de chocar, nos faz rir.
Um produto que poderia ser bom, mas foi punido.

Nota: 5

Nem preciso lembar que o diretor Paul Verhoeven (Vingador do Futuro, Robocop, O Homem sem Sombra) adora uma polêmica. E gosto disso. Gosto do diretor que não se preocupa com a censura e consegue fazer o filme que imaginou. Se não fosse assim, nunca teríamos a famosa cruzada de perna de Sharon Stone. Essa parte é fichinha comparada as cenas de sexo que é para crianças se formos ver as cenas de violência.
Digo apenas que é um puta de um suspense. Um dos melhores que já assisti. Adoro o gênero e sou muito exigente quanto a ele.
Um drama policial instigante que nos faz dormir com a incerteza debaixo da cama.

Nota: 9

Al Pacino. Preciso escrever mais alguma coisa? Claro que preciso e quero escrever.
Perfume de Mulher foi o filme que me fez gostar de dramas. E devo muito a ele.
A cena do Tango com a música Por Una Cabeza é uma das mais memoráveis e até imitada por James Cameron.
Pacino está em sua plena forma e realiza uma belíssima atuação que lhe rendeu o Oscar.
Nunca esquecerei o quanto Charlie Simms sofreu nas mãos do coronel aposentado Frank Slade. E como esse mesmo homem mostrou a importância do caráter.

Nota: 10

29/11/2009

Foi Apenas Um Sonho

Embora o cineasta britânico Sam Mendes tenha entrado com o pé direito no mundo dos hollywoodianos com o famoso lema american way of life em 'Beleza Americana', Mendes também pode desenvolver outros trabalhos interessantes numa violência como espotim em 'Estrada para Perdição', o sentido da guerra em 'Soldado Anônimo' - e agora com o seu mais novo drama 'Foi Apenas Um Sonho', podendo demonstrar o seu clássico conflito entre o microcosmo interior e o mundo à volta, a abnegação de um sentido qualquer da vida e as situações fora de controle.

Baseado em um romance de Richard Yates de 1961, 'Foi Apenas um Sonho' conta a história de um jovem casal feliz, que aos poucos foram sofrendo as agruras da chamada "instituição casamento" na década de 1950, época em que se propagou ao mundo o olhar cor-de-rosa sobre o modo de vida dos norte-americanos.

Frank (Leonardo DiCaprio) e April (Kate Winlest) sempre se consideraram especiais e prontos para levar a vida seguindo ideias. Ao se mudarem para uma casa na Revolutionary Road, eles ficam orgulhosos por declarar independência da inércia suburbana que os rodeava. Porém, logo eles percebem que estão se tornando justamente aquilo que não queriam ser. Frank está em um trabalho insignificante e tem medo de tudo, enquanto a sonhadora April é uma dona de casa infeliz. Decidida a mudar a situação, April propõe que comecem tudo de novo, deixando de lado o conforto da atual casa e recomeçando em Paris. Só que, para executar este sonho, eles chegam aos seus extremos sem si quer notar, deixando com que algo de inesperado o aconteça.



E como muitos dizem, Mendes conta sua história quase como um "cronista", apresentando desde o primeiro encontro do casal até o cruel desfecho, ainda em que se percebam características da literatura de Ibsen, essa tentativa de mostrar a vida contemporânea de forma realista através dos conflitos psicológicos das personagens.

Apesar de Mendes ser um novato nesta experiência de ser um hollywoodiano e por muitas pessoas lhe criticarem por conta disto, não significa que um diretor como ele poderá jamais os surpreendes, superar até mesmo os mais antigos e de certas diligências. Porém, neste filme ele pode mostrar o passo principal ao conseguir dirigir um magnífico drama, que trouxe a participação dos lendários de 'Titanic', Leonardo DiCaprio e Kate Winlest muito mais amadurecidos e Michael Shannon compartilhando sua louca inteligência com a personagem John Givings, podendo dar um toque maior de sobrevivência no longa.



Portanto, podemos citar que, assistir 'Foi Apenas Um Sonho' é uma aula para que possamos saber como se é feito um verdadeiro filme dramático, dando um amontoado de cenas-chaves que simplesmente podemos montar como um quebra-cabeça e dar um andamento à narrativa. Há cena de encontro, de adultério, de rompimento, de aborto, e que acaba podendo ser desenvolvido neste único filme, deixando-o ainda mais interessante.

Além da poderosa atuação de Leonardo DiCaprio e Kate Winlest e da supreendente direção de Sam Mendes, devemos elogiar também a belíssima fotografia naturalista de Roger Deakins e a fantástica trilha sonora de Thomas Newman, que também fizeram deste filme um belo trabalho para que descem ainda mais vida e origem, podendo chegar aonde merecia estar. Foi um conjunto esplêndido.



Foi Apenas Um Sonho
Revolutionary Road
EUA, 2008 - 119 min – Drama
Direção: Sam Mendes
Roteiro: Justin Haythe, baseado em livro de Richard Yates
Elenco: Leonardo DiCaprio, Kate Winslet, Michael Shannon, Ryan Simpkins, Ty Simpkins, Richard Easton, Kathryn Hahn, Zoe Kazan, Dylan Baker, Keith Reddin, Max Casella, Max Baker, Jay O. Sanders, Duffy Jackson, John Behlmann, Kathy Bates, Kristen Connolly

Nota: 10

22/11/2009

Star Trek - Uma nova jornada nas estrelas

Começo essa resenha com uma confissão: nunca fui fã de Jornada nas Estrelas. Seja em filmes, séries ou seja o que for. Sempre preferi as idéias do senhor George Lucas e sua mitologia Jedi. Até porque vivi essa época. Porém depois de tanto tempo, mais uma cria nasce para o delírio dos trekkers. E admito, que filho mais bem feito.

Criado originalmente nos anos 60 (muito anos antes de Luke Skywalker nascer) a série se tornou uma verdadeira febre. Uma religião para muitos fãs. Até a base da história recebeu o nome de cânone. Uma bíblia que deve ser respeitada por todos que ousarem se aventurar no espaço. Mas o combustível da USS Enterprise foi acabando e a série entrou em uma decadência até o seu encerramento. E anos-luz adiante, um homem, responsável pelos maiores sucessos do momento, entre eles Lost e Fringe (além de ter dirigido o ótimo Missão Impossível 3), se pôs a frente de um projeto arriscadíssimo e perigoso: renascer a franquia.

O nome desse homem e que igualmente a mim se declarou não fã, atende por J.J. Abrams. E para desenvolver esse tesouro super bem vigiado, contou com a ajuda dos roteiristas mais requisitados atualmente, Roberto Orci e Alex Kurtzman. A dupla milionária que encheu os cofres de estúdios com os sucessos Transformers e Lost. Com esse trio formado, como seria o futuro da série? Realidade Alternativa. Com essas duas palavras e muitas explosões, realizaram um dos melhores filmes do ano.

Um roteiro inteligentíssimo e bem elaborado, uma direção competente, um elenco afiado, Star Trek (a renovação atingiu até o título) surpreendeu muita gente. E fez muito trekker sorrir de orelha a orelha. Havia o cânone, porém eles não se prenderam a isso. As regras estão ali mais como uma homenagem do que uma obrigação. Com a idéia de outras realidades posta na mesa, Roberto e Alex abriram um leque enorme de opções, ressuscitando de vez a franquia. Tudo é válido, sempre dentro de um consenso já pré-estabelecido. É como se um carro desgastado fosse reformado e entregue ao um novo dono. A USS Enterprise está mais forte do que nunca. E as emoções também.

Todos os personagens antigos estão em seus novos corpos, ou seja, em seus novos atores. Todos muito bem interpretados, cada um com sua parcela de importância e desenvolvimento na história. Chris Pine encarna brilhantemente o capitão James T. Kirk, sendo o primeiro trabalho de expressão em sua promissora carreira. Mas o destaque fica mesmo com a dobradinha dos atores Leonard Nimoy e Zachary Quinto ambos interpretando o Sr. Spock. O primeiro é uma última homenagem a série clássica e o segundo é o começo de uma nova aventura. A semelhança é absurda.


Antes de encerrar, queria parabenizar o compositor Michael Giacchino pela empolgante e sensacional trilha sonora. Soube perfeitamente com a sua música criar cenas épicas em um blockbuster. E corrigindo o que escrevi no ínicio do texto, nunca fui fã da série antiga, agora sou um trekker dessa série nova.

Star Trek
EUA, 2009 - 126 min - Aventura / Ficção científica
Direção: J.J. Abrams
Roteiro: Roberto Orci, Alex Kurtzman
Elenco:Chris Pine, Zachary Quinto, Simon Pegg, Eric Bana, Karl Urban, Dr. Leonard 'Bones' McCoy, Amanda Grayson, Zoe Saldana

Nota: 10

08/11/2009

The Circle - Bon Jovi



25 anos de carreira. Mais de 120 milhões de discos vendidos. Com o último trabalho,"Lost Highway", conseguiram voltar ao primeiro lugar de vendas nos EUA. Algo comum para bandas que se destacam no início ( na sua grande maioria com a ajuda das gravadoras), mas depois de tanto tempo é algo para se pensar. Sem sombra de dúvida, Bon Jovi é uma das bandas de rock mais importantes da história da música norte-americana. A cada álbum, hits que agitam estádios e embalam os corações dos apaixonados. E em 2009, lançam seu 11° trabalho de estúdio: "The Circle".

O que era para ser o lançamento de uma nova coletânea, devido a crise mundial a banda entrou em uma fase criativa que acabou resultando num álbum inédito. 12 músicas muito bem trabalhadas, com letras que retratam problemas atuais. Destacando obviamente a crise dos norte-americanos. Além da ótima composição realizada por Jon Bon Jovi, Richie Sambora e amigos, temos também a volta de maior destaque para o tecladista David Bryan e o baterista Tico Torres. Os dois que ficaram esquecidos nos últimos álbuns. Destaque maior para Tico e Richie que foram geniais na maioria das músicas.

Para quem não conhece a banda, pode estranhar quando ouvir todos os cds. A cada novo trabalho, um som diferente. Sempre no rock, porém acompanhando a sua época. A tendência. E agora mostram como se faz um som moderno com qualidade mais uma vez. Porém muito acima do que andaram lançando. Lembrando muito a linha de bandas como U2, The Killers e um pouco de Coldplay, "The Circle" tem a marca inconfundível da banda: melodias marcantes e refrões memoráveis.

Agora vou comentar sobre o mais importante: as músicas. "We Weren't Born To Follow", primeiro single, abre o álbum com uma ótima levada de guitarra e um refrão contagiante que deve ficar muito melhor ao vivo. E o começo de sua letra já nos mostra para quem é direcionado o novo cd:

"Esta vai para os que procuram por milagres
Esta vai para os necessitados
Esta vai para o pecador e o cínico
Isto não é sobre pedir perdão"

"When We Were Beautiful" é uma linda canção. É interessante de como você ouve uma música. Se for no computador é uma impressão com aquelas caixinhas de som, mas se for num som potente com saídas para vários canais a história é outra. O som da batida forte de Tico irá tremer sua casa, a guitarra distorcida de Richie irá trincar os vidros, o teclado melancólico de Bryan irá te transportar para outro lugar e Jon te faz lembrar para aonde estamos indo nesse mundo quebrado.

"Work For The Working Man" é a música mais política de "The Circle". Fala sobre o desemprego no país das oportunidades. O som lembra muito "Living on a Prayer", porém só lembra. A marcação da bateria nos remete a batida de um martelo. Uma das melhores músicas do cd, tem força própria para virar clássico. Igualmente a belíssima "Superman Tonight" que te faz lembrar as inesquecíveis baladas dos anos 90:

"Quem irá te salvar quando caírem as estrelas do seu céu?
Quem irá te puxar quando a maré estiver alta?
Quem irá te abraçar quando apagarem as luzes?
Eu não irei mentir
Eu imagino que
Eu posso ser o seu Super-Homem a noite"

Chegou o momento de comentar a mais pesada das 12 faixas: "Bullet". Vindo da família de músicas como "Damned" e "Keep The Faith", discursa sobre a violência numa sociedade dominada pelo dinheiro. Destaque pelo violento solo e o refrão que te já faz pensar quanto tempo ainda temos de vida até que uma bala nos atinja.

"Thorn In My Side" é uma ótima música sobre o que esses garotos acima dos 40 anos ainda podem mostrar. Você irá viajar no solo e o refrão irá grudar na sua boca como chiclete. "Live Before You Die" tem um ótimo trabalho de David Bryan e conta a história de pessoas importantes que passaram na vida de um homem e lhe ensinaram que o mais importante de tudo é viver (melhor que qualquer novela do Manoel Carlos).

"Brokenpromiseland" é feita totalmente para shows. Para entrar e já ir levando milhares de pessoas à loucura. Parece uma música esquecida dos álbuns antigos. Com certeza irá agradar os fãs mais saudosistas. Uma de minhas preferidas. "Love's The Only Rule" tem uma introdução Dance que depois se envolve com uma pulsante bateria (melhor desempenho do Tico) e acaba se transformando na canção mais elaborada do álbum, é a nova farofa do século 21:

"Eu não dou a mínima para como deveria ser
Talvez funcione para você, não funciona para mim
Você escreve a sua verdade e eu escreverei a minha
O telhado de um homem é o céu de outro homem"

"Fast Cars" é a mais difícil de se acostumar até por seu começo morno e chato. Parece um peixe fora da água, mas com o tempo você acaba percebendo que é uma boa canção. Repleta de metáforas acompanhadas por uma ótima linha de teclado, o refrão é o ponto alto com seus sha la sha las. Depois de 8 anos de governo Bush, não poderia faltar o atual momento de esperança do povo que ronda o presidente Obama. E com um felling fora do normal, somos apresentados a esse sentimento na forte "Happy Now":

"Posso ser feliz agora?
Posso, de alguma forma, ser livre?
Eu só quero viver de novo
Amar de novo
Levantar o meu orgulho do chão"

"Learn To Love" é a música para fechar o álbum com chave de ouro. Uma balada repleta de sentimento com um refrão que encerra a mensagem da banda para todas as pessoas:

"Halle, halle, estamos a um suspiro de distância
Halle, halle, do dia em que seremos julgados
Você deixa tudo sobre a mesa
Mesmo que se perca ou ganhe
É preciso aprender a amar o mundo em que se vive"

Enquanto não aprendermos a amar, Bon Jovi nos mostra um caminho melhor através de sua música.

Nota: 10

01/11/2009

This Is It - A grande despedida do rei do pop

Digam que é oportunismo. Acusem o de filme "caça-níquel". Estudiosos e intelectualóides, que apontem e digam: produto da sociedade do espetáculo, da tal "mídia". Pois que o chamem de derivado da curiosidade mórbida das pessoas em ver os últimos momentos da vida de uma celebridade. Isso e muito mais pode vir à tona, mas tenha certeza que são somente bobagens. O que importa é que 'This Is It' é, acima de tudo, um trabalho cinematográfico primoroso, digno e honesto, que sem rodeios vai direto ao ponto, no território onde desenvolve todo o seu discurso, exibe os ensaios do que seria a última turnê do rei do pop: Michael Jackson.

Poderia ser o horror, evidentemente. Por se tratar de um projeto póstumo de um artista pop de fama universal, se tivesse caído em mãos erradas, tinha tudo para ser de um mau gosto tremendo, apelativo, melodramático, demagogo, fazendo uso de uma linguagem que clama pela emoção do espectador, pré-fabricando sentimentos. Exemplos de recursos desse tipo de abordagem, que ainda bem passam longe de 'This Is It', são muitos: auto-indulgência, imagens de arquivo da carreira, retrospectiva da vida, flashbacks, imagens em câmera lenta, depoimentos de amigos e familiares chorosos, fãs inconsoláveis em vigília, trilha orquestrada melosa, desesperados clamando etc. Porém nada disso, surpreendentemente, está presente. O que é muito positivo, uma vez que o filme torna-se uma finalidade em si, e não um meio para conquistar fãs, aumentar as vendas, e toda a sorte de retórica publicitária.



Partindo da exibição dos ensaios, em uma pegada documental, o espectador presencia o filme com um distanciamento quase que godardiano: temos plena consciência o tempo todo de que estamos numa sala de cinema, assistindo a um ensaio (e não um show acabado), e que nada daquilo se concretizou – afinal, o final todos nós sabemos qual é. E é com esse distanciamento emocional que podemos apreciar o filme e a presença de Michael Jackson de forma racional, percebendo as nuances de seu comportamento, sua maneira de conceber a arte, sua mente que funcionava a mil por hora tentando unir imagem, som e movimento, em seu modo totalmente único de visualizar o mundo. Percebendo isso na tela, todo o empenho e perfeccionismo de MJ, é que todos se emocionam genuinamente.

O que há no filme é o palco, o ensaio, o artista multitalentoso e o regente Michael Jackson – ele próprio chegou a dizer que só existia de fato no palco, e era lá que queria sempre estar. Estão lá os bastidores e a preparação do novo show, o trabalho em equipe, a gênese de uma nova proposta estética para o universo pop, algo que Michael fez a cada novo passo em sua carreira, em cada música, a cada novo lançamento. O foco está em exibir um Michael Jackson distante da figura debilitada, infantil e manipulável, ou mesmo de celebridade inacessível. Mas de um legítimo maestro, o Manda-Chuva, gênio criativo, um profissional absolutamente perfeccionista, que não titubeia em momento algum, seguro de si sem jamais hesitar em chamar a atenção de músicos e equipe técnica, dando suas broncas severas (educadas, de qualquer modo) e exigindo o melhor. Aparece usando termos técnicos, e pedindo coisas tais como a "síncope" correta, o andamento fiel à gravação, a interpretação musical, porém constantemente preocupado com que todos apareçam no palco e façam o seu show. "Somos uma família", diz.



O filme tem sua sequência e ritmo estabelecidos tal qual seria a ordem das músicas nos shows. Para cada canção, como já era de praxe em suas turnês antigas, um novo universo, um novo mundo repleto de signos particulares, preenche a cenografia de palco a cada novo tema. Para "Beat it", a grua leva MJ para fora do palco, acima e próximo ao público. Para "Jam", artistas entram no palco pelo solo, através de um sistema de impulsão. Para "Earth Song", imagens do mundo sendo destruído e uma criança tentando salvá-lo o quando é tempo, podendo se tornar então, uma das cenas mais emocionantes do filme. Para "Thriller", um novo videoclipe, com uma nova roupagem computadorizada, sendo exibido em 3D ao fundo. Brilhante!

Há uma clara preocupação em tornar o espetáculo o mais ligado ao momento contemporâneo, e para tanto muitas das músicas são apresentadas em mash-up, que é simplesmente a junção de uma ou mais canções em uma só – o recente álbum "Love", dos Beatles, é um exemplo. O público dos shows seria apresentado a novas versões, como "Wanna Be Startin’ Something" junto com "Another Part of Me"; "They Don’t Care About Us" com "Why You Wanna Trip On Me"; e muito mais, como "The Way You Make Me Feel" misturada com "Heartbreak Hotel" (aliás, o palco foi caracterizado para esta canção lembrando a cenografia do show de retorno de Elvis Presley aos palcos em 1968, o lendário 'Elvis '68 Comeback Special').



Mas o ponto alto seria, sem dúvida, e em especial para os fãs de cinema assim como eu, o da música "Smooth Criminal". O clipe original da canção, de 1988, era uma espécie de refilmagem da sequência final do clássico musical 'A Roda da Fortuna', de 1953, de Vincente Minnelli – todo aquele clima de cabaré, iluminação de cinema noir, homens de terno justos, femmes fatales, etc. Para este show, a ideia de homenagem ao cinema foi mantida, porém indo muito além, com o auxílio de muita criatividade e tecnologia de primeiríssima mão. Michael Jackson aparece nas imagens (que seriam projetadas) contracenando dentro do filme 'Gilda', de 1946, com a musa Rita Hayworth, em papel que dá título ao filme. Como se já não fosse suficientemente genial, Michael, em persona gangster, aparece trocando tiros de metralhadora com ninguém menos que a maior estrela do cinema clássico americano, Humphrey Bogart. As imagens utilizadas são do noir 'Relíquia Macabra', de 1941.

Talvez o que se possa observar no sentido mais depreciativo é que Michael claramente não dispunha mais da mesma vigor físico dos velhos tempos, e que encontrava dificuldades ao cantar em certos momentos, infelizmente, devido a pressão que sofria com a produção. Porém, de qualquer forma isso é algo que conquista por seu empenho e sua originalidade, em não recorrer a playbacks nos momentos mais necessitados.



'This Is It' soma-se com muita propriedade a não tão extensa séries de filmes da história do cinema que tem como mote os bastidores de turnê. Os anos 60, por razões óbvias, teve o fortalecimento do gênero musical "por detrás dos palcos" com "Don’t Look Back", de Bob Dylan, dirigido pelo artista de vanguarda D. A. Pennebaker (dali sairia o clipe de "Subterranean Homesick Blues"); "Charlie is My Darling", bastidores de uma das primeiras turnês dos Rolling Stones (exibe Mick Jagger caindo de bêbado cantarolando o riff de "I Feel Fine", dos Beatles) e, é claro, "Os Reis do Iê-Iê-Iê", dos Beatles, um mockumentary (mistura de ficção e documentário). Nos anos 70, o mais importante foi o "The Song Remains the Same", do Led Zeppelin. Nos anos 80, fez escola o "Rattle and Hum", do U2. Anos 90, o mais emblemático sem dúvida foi o "Live! Tonight! Sould Out!", do Nirvana. Bons exemplos recentes são o "Meeting People is Easy", do Radiohead e "Lord Don’t Slow me Down", do Oasis.

Mas nada, até pelas circunstâncias, pode ser comparado com 'This Is It': é simplesmente um filme feito com imagens de bastidores de uma turnê que sequer aconteceu, e que seria a última despedida de uma pessoa que foi o artista mais popular da face da Terra, o criador do videoclipe moderno (pós-80), e que simplesmente morreu horas depois daquelas imagens – e sabemos disso o tempo todo. Não há como evitar a melancolia, em saber que todo aquele empenho sobre-humano foi em vão no dia em que foi encontrado morte em 25 de junho de 2009.
'This Is It' é nada mais que seu verdadeiro testamento.



Michael Jackson's This Is It
EUA, 2009 - 102 min – Documentário
Direção: Kenny Ortega
Roteiro:
Elenco: Michael Jackson, Alex Al, Michael Bearden, Nick Bass, Mekia Cox, Daniel Celebre, Chris Grant, Misha Gabriel, Judith Hill, Dorian Holley, Shannon Holtzapffel, Bashiri Johnson, Charles Klapow, Jonathan Moffett, Orianthi, Tommy Organ, Mo Pleasure, Daryl Phinnessee, Ken Stacey, Dres Reid, Tyne Stecklein, Timor Steffens

Nota: 9
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Tradução Google